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"Excelentíssimo Senhor
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, Excelentíssimo Senhor
Embaixador Fernando Reis, Diretor do Instituto Rio Branco e paraninfo da
turma, Pais e familiares dos jovens formandos, Meus colegas, novos colegas e
antigos colegas, Ana, minha mulher, a quem cumprimento, assim como a todos os
cônjuges dos diplomatas, que também têm de passar por muitos sacrifícios na
vida.
Presidente,
recentemente eu fiz uma palestra na COPPE, que comemorava seus 45 anos, sobre
criação e inovação na política externa brasileira. E foi até uma
ocasião interessante - e como eu não tive ocasião de mencionar ao Senhor em
privado, menciono-o publicamente - porque na realidade o homenageado daquela
sessão era o Oscar Niemeyer, e o Oscar Niemeyer disse que já recebeu muitas
homenagens na vida e não estava querendo outra homenagem centrada absolutamente
nele. Então pediu que fosse feita uma palestra sobre política externa
brasileira, uma vez que ele, grande admirador seu e do seu Governo, via na
política externa brasileira também um dos pontos altos, na opinião dele, do
momento atual que nós estamos vivendo. Eu acho que um cumprimento desses, de um
brasileiro, talvez um dos mais ilustres brasileiros vivos, é a melhor
gratificação que podemos receber.
Mas por que eu escolhi
o tema de criação e inovação na política externa para aquela ocasião? Será que
eu acho que isso é apropriado para os jovens que ingressam - já ingressaram, na
realidade, mas seu ingresso hoje se formaliza - no curso do Rio Branco? É
porque a criação e a inovação são absolutamente necessárias na nossa profissão.
O mundo muda constantemente. Desde minha época, da época do Embaixador Fernando
Reis, até hoje, o mundo mudou de maneira extraordinária. E o Brasil também
mudou. São mudanças - algumas palpáveis, algumas muito visíveis, como, por
exemplo, a queda do muro de Berlim. Mudanças a que o Brasil, os brasileiros, em
sua grande maioria, assistimos de maneira passiva, porque era um evento que
extravasava a nossa capacidade de ação.
Mas há também outras
mudanças e outros muros que estão sendo derrubados nos quais nossa ação é
fundamental. O muro de Berlim, a queda do muro de Berlim marcou o fim do
conflito Leste-Oeste. Mas existe também uma antiga separação, que é a separação
Norte-Sul, um muro, como eu disse na ocasião daquela palestra, talvez mais
espesso, porque a derrubada será mais difícil, mais lenta e mais complexa, que
não vai atrair a atenção da mídia, mas nem por isso um muro menos importante
que o muro Norte-Sul. Na derrubada desse muro, nós não somos apenas
espectadores, olhando as nossas câmeras de televisão. Nós somos atores e o
Governo do Presidente Lula tem sido um ator particularmente participante desse
processo.
Então, eu acho que isso
é um símbolo, entre muitos outros, desse novo mundo que os nossos novos colegas
vão encontrar.
Acho que um dos piores
defeitos que pode haver em alguém que esteja voltado para a ação, para a ação
prática e a ação política, em especial, é ver as coisas novas com olhos velhos.
Olhar, por exemplo, as questões da integração da América do Sul como se elas
fossem ainda as questões das rivalidades em torno da Bacia do Prata.
Hoje a nossa realidade
é outra. O que antes era competição, rivalidade; hoje, o nome do jogo é solidariedade.
Solidariedade sem nunca perder de vista, naturalmente, o interesse nacional.
Mas dentro da convicção de que o interesse nacional é melhor servido se nós
pudermos entender que vivemos em um conjunto, que não haverá um Brasil próspero
e desenvolvido se não houver uma América do Sul próspera e desenvolvida. Essa
tem sido a política do Presidente Lula que nós temos executado.
Agora, essa política suscita
muito mais desafios, porque o Brasil é chamado a atuar de maneira muito mais
freqüente. E eu penso que o mundo mudou e o Brasil também mudou.
O Embaixador Fernando
Reis - que me deu o privilégio de ler o seu discurso - vai mencionar também um
outro Dantas, além do Souza Dantas, que é o patrono, muito bem escolhido, de
vocês. Ele vai mencionar o San Tiago Dantas. E eu lembro que gesto de ousadia
enorme, que símbolo de
independência admirável foi a abstenção praticada por San Tiago Dantas na
votação das sanções contra Cuba, na Reunião de Punta del Este!
Hoje, a abstenção
pareceria pouco. Hoje, o Brasil certamente votaria contra uma decisão desse
tipo. Não porque o Brasil concorde ou discorde de tudo que se passa nesse ou
naquele país, mas porque hoje a nossa convicção é de que o engajamento
construtivo é muito mais importante e muito mais eficaz - inclusive para a própria
democracia no continente - do que o isolamento ou a mera indiferença.
A esse respeito, eu
gostaria de comentar algo que nós temos mencionado nos últimos anos: que a
nossa política - que continua a ser, como sempre foi, uma política de
não-intervenção - , com o passar do tempo, dado o próprio crescimento da
influência do Brasil, teve de ver nessa não-intervenção um tempero novo. E o tempero
novo, que não altera o princípio, é a não-indiferença. Nós agimos de maneira
não-indiferente quando criamos o Grupo de Amigos da Venezuela. Nós agimos de
maneira não-indiferente quando participamos, da maneira que temos participado,
na tentativa de reconstituição não só da ordem pública, mas do desenvolvimento
e da prosperidade no Haiti. E nós agimos de maneira não-indiferente quando
atendemos a um apelo da Bolívia - e vamos participar juntos, nesse caso, com a
Argentina e a Colômbia - do Grupo de Amigos que procura uma solução, pelo
diálogo, para esse nosso país vizinho.
Eu queria também dizer
a vocês que isso é uma inovação. Não é uma inovação decorrente do tempo, mas há
muitas outras inovações e seria muito longo eu me estender sobre todas elas
nesse momento em que todos querem escutar, naturalmente, o nosso Presidente, o paraninfo
e o orador. Mas eu gostaria de deixar claro que dentro desse processo de
inovação a nossa aproximação com a África é um fato novo. Não que seja inédito,
porque nunca tenha havido antes, mas, como diziam alguns filósofos do século
XIX, a quantidade altera a qualidade, a quantidade, freqüentemente, se transforma
em qualidade, e a determinação, a insistência mesmo com que o Brasil, sob a
orientação do Presidente Lula, tem procurado se reaproximar da África é um dos
pontos mais notáveis da nossa política externa. Eu estou mencionando dois
pontos, mas poderia me estender aqui e falar da Ásia, falar da nossa parceria
estratégica com a União Européia, falar das nossas excelentes relações com os
Estados Unidos - mas iríamos muito longe.
Eu quero só deixar a
vocês a seguinte noção: o Brasil é, hoje, um ator de grande relevo na política internacional.
Até havia uma frase, que tiramos aqui de um discurso escrito: que o Brasil
precisa ir "além de suas sandálias", além daquilo que as pessoas consideram ser
as suas sandálias. O Brasil precisa realmente se afirmar. Não deve ter vergonha
de se afirmar.
Entre muitos outros
estudos que eu poderia mencionar, eu me referirei a um, porque está hoje na
imprensa. É um artigo do Wall Street Journal, reproduzido em um jornal
brasileiro. Ele se refere claramente ao fato de que o Brasil se transformou em
um mediador, inclusive no jogo das grandes potências, pelo menos na área comercial.
É algo que nós não poderíamos prever. Quem acompanhou a Rodada Tóquio - e
vejo aqui o Embaixador João Gualberto -, quem acompanhou a Rodada Uruguai, como
eu mesmo lá estive, nós sabemos que a nossa capacidade de reação era limitada.
Entre os países em desenvolvimento, nós éramos até um dos países ouvidos.
Mas ouvidos no
finalzinho, para transformar um til em um acento circunflexo, transformar uma
vírgula em um ponto-e-vírgula, não mais do que isso. Hoje, todos sabem que
aquilo que o Brasil disser vai ter uma influência muito grande no próprio
processo das negociações.
Isso não ocorreu de
graça. Isso ocorreu porque o Brasil mudou, porque o
Brasil hoje é uma democracia pujante, porque o Brasil é visto em todo mundo
como parte da solução dos problemas, inclusive nas questões tão importantes
como do biocombustível e dos alimentos, e não como parte do problema, porque o Brasil
atendeu e está atendendo as necessidades sociais de seu povo e porque o Brasil
tem também uma política externa que é, ao mesmo tempo, desassombrada e pragmática.
Desassombrada, porque ela não tem medo; pragmática, porque ela busca resultados
concretos. Ela não está apenas querendo fazer volteios ou malabarismos, sem
objetivos específicos.
Eu queria dizer,
portanto, que isso é verdade para todos os temas. Eu me referi à OMC, mas isso
é verdade para o clima, é verdade para a energia, é verdade para a questão de
alimentos, para os grandes temas globais - está aqui também o Ministro
Figueiredo, que preside o grupo negociador sobre clima. É um orgulho para todos
nós que o Brasil seja sempre trazido a essas posições.
Então eu queria, com
sua permissão, Presidente, mais uma vez, ter o prazer de receber oficialmente
mais uma turma de colegas, formados pelo Instituto Rio Branco, essa instituição
de excelência. E, falando de excelência, eu queria apenas fazer um último comentário:
essas mudanças que têm ocorrido no País e no mundo exigem mudanças também no
Ministério. O Itamaraty tem que se renovar, o Itamaraty tem que se rejuvenescer,
o Itamaraty tem que ser um reflexo do que é a sociedade brasileira - seja na
maior participação das mulheres, seja na maior participação das minorias, em
todos os postos. E tem que fazer isso sem perder a excelência. Esse é o grande
desafio que nós temos. Esse é o desafio que vocês enfrentarão.
Essa é a grande
história da diplomacia brasileira. E nessa história vocês não serão apenas
espectadores, mas serão atores e autores. Bem-vindos!"
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